O Triste fim das técnicas e manobras de higiene brônquica

December 6, 2016

As manobras de higiene brônquica sempre estiveram intimamente ligadas à história da fisioterapia. Um dos primeiros relatos publicados na literatura remete ao ano de 1901, com um trabalho relatando o uso da drenagem postural em pacientes com bronquiectasia, publicado na prestigiada revista The Lancet.(1)

 

Desde então até nossos dias, muitas outras técnicas, manobras e recursos foram desenvolvidos e aplicados na prática clínica com o objetivo de deslocar, mobilizar, fluidificar e/ou eliminar as secreções acumuladas nas vias aéreas de pacientes com doenças respiratórias.

 

Estas manobras de higiene brônquica (MHB), em alguns casos, divergem completamente entre si, partindo de princípios físicos fundamentalmente diferentes e, outras vezes, são extremamente semelhantes e parecem diferir apenas no nome.

 

Com o advento da chamada medicina baseada em evidências, que teve como marco a publicação da obra “Effectiveness and Efficiency” de Archie Cochrane em 1972,(2) tanto a drenagem postural, quanto outras desenvolvidas até então, precisaram passar pelo escrutínio do método cíentífico. A simples observação empírica já não sustentava mais a utilização clínica de qualquer conduta terapêutica. Infelizmente, a fisioterapia não acompanhou a escalada científica que a medicina passou a adotar a partir de então.

 

Os primeiros passos a caminho do reconhecimento científico começaram a ser dados há pouco tempo. Dispomos atualmente somente de alguns ensaios clínicos randomizados e de boa qualidade metodológica sobre as MHB, que geraram revisões sistemáticas e guidelines.

 

Resumidamente, o Guideline  da American Association of Respiratory Care (3) informa que “As MHB não são recomendadas para tratamento de pneumonias, pacientes com DPOC, pós operatórios e qualquer paciente capaz de mobilizar secreção por meio da tosse.”

 

Uma revisão sistemática, publicada na importante revista “Respiratory Care” conclui que “há uma limitada evidência da efetividade das técnicas de higiene brônquica e que estas conferem de zero a pequenos benefícios em somente alguns desfechos clínicos.” (4)

 

O Guideline do American College of Chest Physicians afirma que “os estudos disponíveis apresentam graves limitações metodológicas, os efeitos a longo prazo não são avaliados, a comparação entre as técnicas com a tosse isoladamente não é conhecida e que quando equipamentos são utilizados, eles apresentam o mesmo efeito que uma manobra.” (5)

 

Dean Hess, reconhecido pesquisador, nos apresenta uma frase bastante contundente sobre as MHB: “Há uma carência de evidências de alto nível para apoiar qualquer técnica de depuração de secreção.”(6)

 

Em síntese, é necessário coragem para quebrarmos velhos paradigmas e guiarmos nossa assistência clínica baseada nas evidências. É preciso desapego à condutas baseadas em crenças pessoais e observações clínicas sem método científico. Somente assim, nossa atuação será realmente eficaz, proporcionando reais benefícios aos pacientes e reconhecimento profissional.

 

Vale ressaltar que os estudos citados acima são desfechos apresentados para a população adulta, uma vez que a aplicabilidade dessas técnicas para a população pediátrica é bem diferente.

 

Referências

  1. Cantab MD et al. The Lancet 1901;158:70-72

  2. Cochrane A. http://www.nuffieldtrust.org.uk/sites/files/nuffield/publication/Effectiveness_and_Efficiency.pdf. Visualizado em 23/11/2016.

  3. Strickland et al. Resp Care 2013;58(12):2187-93.

  4. Andrews J et al. Respir Care. 2013;58(12):2160-86.

  5. McCool 2006. Chest;129:250S–259S.

  6. Hess D. Resp Care 2001;46(11):1276-93.

 

Texto desenvolvido por:

Dr. Anderson José

Fisioterapeuta e Administrador de Empresas, especialista em fisioterapia aplicada à pneumologia, mestre, doutor e pós doutorando em Ciências da Reabilitação.

Docente e supervisor do Curso de Especialização em Fisioterapia Intensiva - Physio Cursos 

Tem experiência na docência, pesquisa e assistência como professor titular da Universidade Nove de Julho e Fisioterapeuta supervisor do curso de especialização em fisioterapia respiratória da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Atua nos seguintes áreas: reabilitação pulmonar, reabilitação domiciliar, fisioterapia respiratória e ventilação mecânica

 

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