• Dra. Ana Carolina A. Silva

Aspiração endotraqueal por sistema aberto versus sistema fechado e instilação de solução salina em p

O processo de aspiração endotraqueal é uma prática usual nas unidades de terapia intensiva, devido ao alto índice de uso de via aérea artificial e os efeitos que esse tipo de prótese causa sobre a depuração de secreções pulmonares, tendo como objetivo manter as vias aéreas pérvias, para uma ventilação adequada. Entretanto, esse procedimento pode gerar alterações de oxigenação, hemodinâmica e estresse nos pacientes, principalmente na população pediátrica e neonatal. (1)


Para realização da aspiração, pode-se utilizar o método aberto (SAA), onde o paciente é desconectado da ventilação, e o método fechado (SAF), onde a aspiração é feita através de um sistema estéril, que permanece conectado ao circuito do ventilador, não sendo necessária a despressurização do mesmo. (2)


Não há um consenso no Brasil quanto à opção pelo sistema aberto ou fechado, visto que a literatura sobre o tema é escassa. Em um trabalho conduzido por Kalyn et al (2003), com 200 prematuros divididos em 3 grupos por peso, foram avaliados os efeitos da aspiração fechada e aberta sobre pressão arterial sistólica(PAS), saturação periférica de oxigênio (SpO²) e concentração de gás carbônico na expiração (ETCO²). Houve queda da SpO² basal em ambos os métodos. Durante o SAA, ocorreu aumento significativo da PAS, diminuição da frequência cardíaca a cada passagem da sonda, redução na mensuração de ETCO² sem alteração clínica, e maior tempo para retorno aos parâmetros fisiológicos basais. Um estudo de Taheri ET AL (2012) corrobora com os achados relacionados a redução da SpO² durante o SAA. (3,4)


Choong ET AL (2003) avaliaram os efeitos do SAA e SAF sobre o volume pulmonar. Foram incluídos 14 crianças com idade variável de 6 dias a 13 anos, onde a alteração de volume pulmonar foi avaliada por pletismografia de indutância. Verificou-se que durante aspiração por SAA, houve um descréscimo no volume pulmonar principalmente ao desconectar o circuito, e houve queda as SpO², ambos com significância estatística. Não há evidências sobre o aumento da incidência de pneumonia associada a ventilação, quando utilizado o SAF. (5,6)


O uso do sistema fechado não é corriqueiro em grande parte dos serviços, devido ao custo um pouco mais elevado em relação ao sistema aberto. Entretanto deve-se pensar nos benefícios demonstrados ao paciente com seu uso.


Instilação de Solução Salina

A instilação de solução salina na via aérea artificial é amplamente utilizada, com o propósito quase empírico de alterar a reologia do muco, fluidificando a secreção e facilitando a remoção da mesma.

Os malefícios desta prática na população adulta são bem descritos, demonstrando alterações de oxigenação e demora importante ao retorno para dos parâmetros basais. (7) Apesar da literatura relacionada a faixa pediátrica e neonatal, se mostrar controversa no assunto, há evidências recentes que contraindicam a prática. Um estudo prospectivo e randomizado que contou com 24 pacientes pediátricos, onde 10 receberam instilação de solução salina e 14 não receberam. Houve queda na SpO² significativamente maior com relação ao grupo que não recebeu. (8)

Owen ET AL, realizou um trabalho prospectivo em 2016, onde foi analisado o efeito da instilação de solução salina em 69 pacientes com idade média de 4,2 anos, sobre as variáveis de instabilidade hemodinâmica, broncoespasmo, queda de SpO² e tempo de retorno aos valores de base. A análise demonstrou que houve maior incidência de eventos adversos (instabilidade hemodinâmica, broncoespasmo, queda de SpO²) no grupo onde foi instilada a solução salina, com significância estatística ( p <.001). (9)

Podemos concluir que essa prática deve deixar de fazer parte da rotina dos serviços, visto que seus efeitos deletérios são reais. É importante ressaltar que o processo de aspiração em si, também não deve ser realizado de maneira rotineira e sim após uma avaliação minuciosa, visando sempre o que é necessário ao paciente dentro de um atendimento humanizado.


Referências

1 - Endotracheal Suctioning of Mechanically Ventilated Patients With Artificial Airways. Respiratory Care June 2010, 55 (6) 758-764.

2 - I Recomendação brasileira de fisioterapia respiratória em unidade de terapia intensiva pediátrica e neonatal. Cíntia Johnston, Nathalia Mendonça Zanetti, Talitha Comaru, Simone Nascimento dos Santos Ribeiro, Lívia Barboza de Andrade, Suzi Laine Longo dos Santos. Rev Bras Ter Intensiva. 2012; 24(2):119-129.

3- Closed Suctioning of Intubated Neonates Maintains Better Physiologic Stability: A Randomized Trial. Angela Kalyn RNC, MHSc, NNP, Susan Blatz RNC, MEd, PhD1, Sandra Feuerstake RN, MHSc, NNP, Bosco Paes MD, FRCP (I), FRCP(C) and Carlos Bautista RRT Journal of Perinatology (2003) 23, 218–222.

4- The effect of open and closed endotracheal tube suctioning system on respiratory parameters of infants undergoing mechanical ventilation

Parvin Taheri, MSc, Narges Asgari, Majid Mohammadizadeh, MD, and Mehri Golchin, MSc. Iran J Nurs Midwifery Res. 2012 Jan-Feb; 17(1): 26–29.

5- Choong, K., Chatrkaw, P., Frndova, H., & Cox, P. N. (2003). Comparison of loss in lung volume with open versus in-line catheter endotracheal suctioning. Pediatric Critical Care Medicine, 4, 69–73.

6- Evidence-Based Guideline for Suctioning the Intubated Neonate and Infant Denice L. Gardner, NNP-BC, MSN Lee Shirland, NNP-BC, MS Neonatal Network VOL. 28, NO. 5, September /October 2009.

7- Ackerman MH, Mick DJ. Instillation of normal saline before suctioning in patients with pulmonary infections: a prospective randomized controlled trial.Am J Crit Care. 1998;7:261–266

8- Ridling DA, Martin LD, Bratton SL. Endotracheal suctioning with or without instillation of isotonic sodium chloride solution in critically ill children. Am J Crit Care. 2003;12(3):212-9.

9- Crit Care Nurse. 2016 Feb;36(1):e1-e10. doi: 10.4037/ccn2016358.

A Bedside Decision Tree for Use of Saline With Endotracheal Tube Suctioning in Children.

Owen EB1, Woods CR2, O'Flynn JA2, Boone MC2, Calhoun AW2, Montgomery VL2.


Texto escrito pela Dra. Ana Carolina Almeida Silva

- Fisioterapeuta

- Aluna da pós-graduação em Fisioterapia Intensiva em Pediatria e Neonatologia - FABIC