Inalação com solução hipertônica em crianças com Bronquiolite Viral Aguda: veja os resultados encontrados em pesquisa clínica randomizada

June 27, 2017

Na prática clínica, muitos profissionais realizam inalação com solução hipertônica em crianças com bronquiolite viral aguda, porém será que é interessante essa prática. Um estudo publicado na JAMA este ano realizou uma pesquisa sobre o assunto, que você poderá conferir abaixo pela resenha feita pela Dra Roberta Athayde, fisioterapeuta e aluna do curso de Pós-graduação em Fisioterapia em Pediatria e Neonatologia da FABIC.

Este artigo teve como objetivo avaliar a eficácia da nebulização com solução hipertônica a 3% em relação à nebulização com soro fisiológico 0,9% na taxa de admissão entre bebês previamente saudáveis ​​que visitam um pronto atendimento (PA) pediátrico em um primeiro episódio de Bronquiolite Aguda moderada a grave, abordardando limitações de estudos anteriores (falta de acompanhamento, incerteza dos resultados e pequeno número de pacientes incluídos) e o risco de potenciais eventos adversos com o tratamento com nebulização hipertônica, como broncoespasmo e dessaturação.

 

O estudo foi um ensaio clínico randomizado duplo-cego, realizado em 24 PA pediátricos franceses entre 15 de outubro de 2012 até 15 de abril de 2014. Os pacientes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos paralelos para receber 3% de solução hipertônica ou 0,9% de nebulização com soro fisiológico. Foram elegíveis para o estudo bebês de 6 semanas a 12 meses de idade com o primeiro episódio de bronquiolite moderada a grave. O distúrbio respiratório foi diagnosticado se pelo menos 2 das seguintes condições fossem atendidas: (1) condição geral alterada e / ou ingestão alimentar reduzida, (2) frequência respiratória maior que 50 incursões/ min, (3) saturação de oxigênio inferior a 95% enquanto acordada E (4) pelo menos 1 sinal de retração subdiafragmática severa ou retração moderada de acordo com o escore do Instrumento de Avaliação de Distúrbio Respiratório (RDAI). Foram utilizados como critérios de exclusão os bebês com parto prematuro; Doença pulmonar imunológica, cardíaca ou crônica; Malformação óssea do tórax; Uso prévio de nebulização hipertônica; Ou incapacidade de se comunicar com a família (barreira do idioma ou falta de telefone por parte dos pais ou responsáveis).

Os bebês com necessidade de internação em uma unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP), também não eram elegíveis

 

Os pacientes receberam 2 nebulizações de acordo com seu grupo de aleatorização: 4 mL de solução hipertônica a 3%, ou 4 mL de solução salina a 0,9%, com duração de 20 minutos e 20 minutos de intervalo. A administração foi realizada usando um nebulizador a jato através de uma máscara facial com um fluxo de oxigênio de 6 L/min.

 

As preparações foram embaladas em frascos de plástico transparente idênticos rotulados apenas com os números de aleatorização. As terapias adicionais foram ordenadas de acordo com os cuidados de rotina na discrição do médico. Os médicos de estudo e os enfermeiros de pesquisa realizaram pontuação respiratória entre as 2 nebulizações e após 20 minutos. Todos os efeitos adversos foram registados ao longo do período de observação no PA pediátrica. Todos os pacientes receberam avaliações por um médico de estudo 20 minutos após o final da segunda nebulização. A decisão de admitir ou dispensar a criança do PA foi feita a critério do médico assistente.

 

A enfermeira da pesquisa obteve dados sobre admissões hospitalares e alimentação, respiração e tosse 3, 8, 15 e 28 dias após a visita ao PA, utilizando um procedimento padronizado de acompanhamento telefônico.

Foram incluídos 777 lactentes no estudo, com idade média de 3 meses,  sendo a maioria do sexo masculino, 385 (49,5%) foram randomizados para o grupo de solução hipertônica e 387 (49,8%) para o grupo de solução salina. As características clínicas e sociodemográficas foram semelhantes nos dois grupos. A prevalência de infecção por RSV foi alta em ambos os grupos. Os pacientes de ambos os grupos receberam tratamento prévio com broncodilatadores e corticosteróides sistêmicos. Não foi encontrada diferença significativa entre os grupos de estudo em relação à hospitalização. Em 24 horas, 185 dos 385 lactentes (48,1%) no grupo de solução hipertônica foram admitidos em comparação com 202 dos 387 lactentes (52,2%) no grupo de solução salina. O tempo médio de permanência para todos os bebês admitidos foi de 3,7 dias, sem diferença entre os grupos. No dia 28, 209 dos 378 lactentes (55,3%) no grupo de solução hipertônica e 226 dos 383 lactentes (59,0%) no grupo de solução salina foram admitidos no hospital. Entre os lactentes hospitalizados, 28 foram admitidos em uma UTIP (15 do grupo solução hipertônica e 13 do grupo solução salina).  O índice RDAI melhorou em ambos os grupos.

 

Embora nenhum evento adverso grave tenha sido relatado, eventos adversos leves foram mais frequentes no grupo de solução hipertônica. A tosse sem dificuldade respiratória foi o evento adverso mais frequente observado e ocorreu 30 vezes entre 26 crianças no grupo solução hipertônica e 4 vezes entre 3 crianças no grupo solução salina. Embora este estudo não tenha encontrado nenhuma diferença significativa na taxa de admissão hospitalar entre os grupos, foi encontrada uma melhora maior no escore RDAI no grupo com solução hipertônica. Este achado sugere que o tratamento com solução hipertônica pode ajudar a aliviar os sintomas a curto prazo, mesmo que não impeça a hospitalização. 

 

Este estudo conclui que não foi demonstrado superioridade no tratamento de nebulização com solução hipertônica em comparação com o tratamento de nebulização com solução salina na redução da taxa de internação de crianças com bronquiolite aguda em PA pediátricas. Ainda relatam que embora não tenham ocorrido eventos adversos sérios, eventos adversos leves foram mais frequentemente experimentados por bebês no grupo solução hipertônica. Concluem que não se pode recomendar o uso de solução hipertônica no tratamento em lactentes com um primeiro episódio de bronquiolite aguda na PA pediátrica.

 

"Achei este artigo muito interessante, já que na prática clínica é observado o uso frequente de nebulização com solução salina hipertônica em lactentes com quadro de bronquiolite, seja na primeira internação por este quadro ou não. Apesar do estudo ter encontrado poucas diferenças em relação a hospitalização dessas crianças com o uso das duas terapêuticas, tiveram algumas limitações que poderiam ter levado a um resultado diferente, como por exemplo o fato de terem incluído apenas crianças com quadro moderado a grave de bronquiolite, o fato de terem realizado apenas 2 nebulizações durante o período que estavam na PA pediátrica, a utilização da concentração de 3% de solução hipertônica, quando muitos estudos utilizam uma quantidade maior. Apesar disso, utilizaram uma amostra significativa de lactentes, gerando uma maior fidedignidade dos resultados em relação ao objetivo proposto. Eles concluem que não deve ser indicado o uso de nebulização hipertônica para evitar a hospitalização por conta da pouca diferença entre as duas terapêuticas e pelo evento adverso leve ter sido encontrado em maior quantidade nos lactentes que receberam solução hipertônica, porém na prática clínica muitos médicos prescrevem a solução hipertônica no intuito de ocasionar mais tosse com remoção de secreção, o que acaba não sendo um evento adverso como um todo, já que atingiria o objetivo proposto".  

 

Referência

Effect of Nebulized Hypertonic Saline Treatment in Emergency Departments on the Hospitalization Rate for Acute BronchiolitisA Randomized Clinical Trial - JAMA - jun - 2017.

 

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